Entrevista com a Ex-Aluna Brasileira Djuena Tikuna

Neste mês, nós tivemos o grande prazer de conversar com a ex-aluna da UniNorte, Djuena Tikuna. Ela é uma artista de sucesso e agora é a primeira indígena da aldeia Umariaçu a obter um diploma em Jornalismo. A história de Djuena é um exemplo extraordinário de dedicação e de uma instituição comprometida com a expansão do acesso ao ensino superior para todos.

EB: Primeiro de tudo, gostaria de parabenizá-la pela sua recente formatura! Adoraria saber o que estava passando por sua mente durante toda a cerimônia de graduação?

Djuena Tikuna: Durante a cerimônia, lembrei-me da minha luta ao longo de quatro anos. As dificuldades que enfrentei e o preconceito que nós, povos indígenas, superamos todos os dias. Foi como se eu estivesse sonhando, as pessoas, meus colegas… e eu estava lá no meio deles, representando os povos indígenas. Mais ainda no Jornalismo, que não é um curso fácil, porque requer muita leitura e o português não é a minha língua. Esta foi uma das minhas maiores dificuldades, mas consegui vencer esse desafio. A emoção tomou conta de mim. Fiquei muito emocionada, estava satisfeita e realizei um dos sonhos dos meus pais, que acreditaram em mim. Ser a primeira jornalista indígena da Amazônia é uma grande responsabilidade, pois eu carrego uma história de 518 anos de exclusão social.

EB: Você se mudou da vila amazônica de Umariaçu para a cidade de Manaus quando tinha apenas sete anos. Como sua vida na aldeia contrasta com essa primeira experiência em uma grande cidade?

DT: Nasci na aldeia de Umariaçu, na fronteira entre o Brasil, Peru e Colômbia. Eu sou uma filha da Amazônia. Quando cheguei em Manaus, eu tinha 9 anos e não falava português. Foi difícil para minha família; enfrentamos o preconceito, mas meus pais nunca desistiram de realizar o sonho de mandar seus filhos para a universidade. Muitos jovens deixam suas aldeias e vêm para a cidade com o objetivo de estudar, mas enfrentam dificuldades para concluir seus estudos. Por muito tempo, o acesso ao ensino superior foi negado aos povos indígenas. Foi somente após a Constituição de 1988 que esse direito foi garantido depois de uma grande luta dos nossos líderes. Quando um de nós consegue ir para a universidade, estamos lá por causa da luta de nossos ancestrais; o triunfo da formatura não pertence apenas a nós, mas a todos os povos indígenas.

EB: Você é uma excelente artista e incentivadora da língua e da cultura Tikuna. Por que decidiu se formar em jornalismo?

DT: Música e jornalismo são uma forma de comunicação e ambos caminham de mãos dadas para contar às pessoas sobre a realidade em nosso país. O curso pode oferecer alternativas e escolhi essa graduação porque pretendo praticar um jornalismo comprometido com os povos indígenas, já que a grande imprensa nem sempre reflete a nossa verdade. Tenho gravado músicas indígenas e trabalhado com grandes nomes da música brasileira há mais de 10 anos. No entanto, meu maior compromisso será sempre aumentar a conscientização sobre a causa indígena, seja como artista ou como jornalista.

EB: O que você mais lembrará da sua experiência como aluna da UniNorte?

DT: Passei quatro anos na instituição e muitas coisas boas aconteceram, como as reportagens que escrevi durante o curso e os temas abordados com foco nos trabalhadores. De alguma forma, deixei uma mensagem importante, de que nós indígenas também somos capazes. Eu compartilhei minha cultura para a turma e os professores.

EB: Para a formatura, você decidiu usar um cocar tradicional de Tikuna. Como você planeja continuar sendo um modelo positivo para sua comunidade e promover o dialeto e cultura de sua aldeia?

O cocar é a nossa identidade, a nossa força, e acredito muito na influência dos nossos ancestrais. Hoje moro na cidade, mas mantenho viva a nossa cultura, seja por meio do canto, da língua, da dança ou de outras artes. Somos exemplos para as gerações futuras.

EB: Você acha que sua experiência encorajará mais pessoas da comunidade indígena a buscar a educação superior na UniNorte?

DT: Sim, tanto na UniNorte quanto em instituições públicas para quem não tem condições pagar. Precisamos diversificar as universidades para fortalecer nosso povo. Existem vários estudantes indígenas na UniNorte e espero que a instituição reconheça e valorize esses alunos, pois todos trazem experiências muito enriquecedoras e podem contribuir de forma muito especial com a instituição.

EB: Qual seria a sua mensagem para mais de um milhão de estudantes da rede Laureate que conhecerão e se inspirarão em sua história?

DT: Podemos ser o que todo mundo é, sem deixar de ser quem somos.

EB: Qual seria o seu conselho para outras pessoas que também são os primeiros de suas famílias ou de suas comunidades a ingressar no ensino superior?

DT: Em primeiro lugar, força – porque eles precisarão dela. Depois, ser persistente e não desistir jamais, mesmo que não fale bem português, tem que encarar a realidade. Eu sei que não é fácil, mas você consegue fazer isso.

EB: Como você se vê daqui a 10 anos?

DT: Espero poder ajudar meus parentes indígenas e ensinar para eles tudo o que aprendi ao longo da minha jornada.